Chegar a um posto de carregamento e encontrá-lo ocupado, seja por um veículo a combustão (o famoso “ICE-ing”) ou, pior, por um elétrico que já terminou o seu carregamento há horas, é uma frustração comum para qualquer condutor de EV. A rede de carregamento em Portugal, embora em crescimento, ainda é um recurso partilhado que exige bom senso e respeito. Tal como na estrada, existem regras não escritas que garantem uma convivência harmoniosa e eficiente.
Ser condutor de um veículo elétrico é juntar-se a uma comunidade. E, como em qualquer comunidade, a boa educação faz toda a diferença. Vamos explorar algumas dessas regras de ouro, baseadas na experiência de quem percorre as estradas nacionais com um EV.
Ocupação do Lugar: Não Confunda o Posto com um Estacionamento
A regra mais básica e, talvez, a mais desrespeitada. Um posto de carregamento serve para carregar, não para estacionar. Assim que o seu veículo terminar de carregar, ou assim que tiver energia suficiente para o seu próximo destino, liberte o lugar.
Pense nisto: cada minuto que o seu carro está ligado, mas já carregado, é um minuto que outro condutor pode estar desesperadamente à procura de energia, talvez com a autonomia no limite. Não se trata apenas de ser simpático, mas de otimizar um recurso que é essencial para a mobilidade elétrica de todos. Se sabe que vai demorar, e o posto tem um custo por tempo de ocupação, pondere a necessidade de manter o carro ligado. Em muitos casos, o custo adicional de ocupação pode ser superior ao valor da energia consumida após o carregamento estar completo.
A Regra dos 80%: Porquê é Importante Desligar Mais Cedo
Esta é uma das regras não escritas mais importantes, especialmente em postos de carregamento rápido (DC). A maioria dos veículos elétricos tem uma curva de carregamento que abranda significativamente após atingir cerca de 80% da capacidade da bateria. Carregar dos 80% aos 100% não só é mais lento, como também pode ser mais caro e menos eficiente, além de impor um stress adicional à bateria.
Porquê parar aos 80%?
- Velocidade de Carregamento: A partir dos 80%, a potência de carregamento diminui drasticamente para proteger a bateria. O tempo que demora a ir dos 80% aos 100% pode ser quase o mesmo que demorou a ir dos 20% aos 80%.
- Disponibilidade para Outros: Enquanto o seu carro “gasta” 30 ou 40 minutos a ganhar os últimos 20%, outro condutor poderia ter feito um carregamento rápido e eficiente para o seu próprio veículo.
- Custo: Como o processo é mais lento, o tempo de ocupação do posto aumenta, e alguns CEME podem aplicar taxas por minuto após um determinado período, tornando os últimos percentuais desproporcionalmente caros.
Um exemplo prático: Imagine que tem um EV com uma bateria de 60 kWh (como um Renault Megane E-Tech ou um VW ID.3) e que o consumo médio do seu veículo é de 16 kWh/100 km, um valor de referência para um EV compacto/médio em utilização mista. Se carregar dos 20% aos 80%, está a adicionar 60% da bateria, ou seja, 36 kWh. Se decidir ir dos 80% aos 100%, estará a adicionar os restantes 20%, ou 12 kWh.
Num posto de carregamento rápido, usando, por exemplo, a tarifa Atlante “myAtlante (MT)” a 0.20 EUR/kWh, carregar esses 12 kWh adicionais custaria 2.40 EUR. No entanto, se o carregador já abrandou para, digamos, 20 kW para os últimos 20%, isso significa que o seu carro ocuparia o posto por mais 36 minutos (12 kWh / 20 kW = 0.6 horas).
Se pudesse carregar esses 12 kWh em casa, durante o período de vazio da sua tarifa bi-horária, a um custo de cerca de 0.13 EUR/kWh (valor arredondado para uma tarifa doméstica no período de vazio), pagaria apenas 1.56 EUR. A diferença de quase 1 euro pode parecer pouco, mas é um custo extra por um carregamento mais lento e que impede outros de usar o posto.
Claro, há exceções. Se estiver numa viagem longa e precisar de cada quilómetro de autonomia, ou se for o único posto disponível num raio de centenas de quilómetros, ir aos 100% pode ser justificável. Mas são exceções, não a regra. Para entender melhor os custos associados, pode consultar o nosso artigo sobre O Custo Mensal Real de um Carro Elétrico em Portugal: Análise em 2026.
Gestão dos Cabos: Segurança e Respeito
Os cabos dos postos de carregamento são caros e pesados. Deixá-los no chão, expostos à passagem de veículos ou a serem pisados, pode danificá-los ou criar riscos de tropeçar. A regra é simples: depois de usar, enrole o cabo e coloque-o no seu suporte. Se o posto não tiver suporte, tente deixá-lo arrumado de forma segura.
E quanto a usar o cabo do vizinho? Alguns postos têm duas tomadas, mas apenas um cabo. Se o outro lugar estiver livre e o cabo for longo o suficiente, pode usá-lo, mas com a devida consideração. Sempre que possível, use o cabo que está mais perto do seu lugar e evite esticá-lo excessivamente.
ICE-ing e EV-ing: Ocupação Indevida
O termo “ICE-ing” (Internal Combustion Engine + -ing) refere-se a quando um veículo a combustão ocupa um lugar destinado a veículos elétricos. É uma das maiores fontes de irritação para os condutores de EV. Estes lugares existem para garantir que os veículos elétricos têm acesso a pontos de carregamento e não são meros lugares de estacionamento.
Mas existe também o “EV-ing”: um veículo elétrico a ocupar um lugar de carregamento sem estar a carregar. Isto pode acontecer por várias razões: o carregador está avariado, o condutor está à espera de outro EV, ou simplesmente está a usar o lugar como estacionamento normal. Embora seja um EV, a lógica é a mesma que no ICE-ing: está a impedir que outro EV carregue.
Como lidar com estas situações? A melhor abordagem é a calma. Se for um ICE-ing, e não houver sinalização clara ou o local não for fiscalizado, pode ser difícil resolver. Em alguns locais, as aplicações de carregamento permitem reportar a situação. Se for um EV-ing, e se for possível, tente deixar um contacto ou uma nota a explicar a situação, ou verificar se o condutor está por perto. Lembre-se que o objetivo é carregar o seu veículo e não criar um confronto.
Comunicação e Tolerância: A Chave da Boa Vizinhança
A comunidade de veículos elétricos ainda é relativamente pequena e em crescimento. É natural que nem todos conheçam estas regras não escritas. Seja tolerante com os novos condutores e, se tiver de intervir, faça-o de forma educada e construtiva.
Algumas aplicações de carregamento, como o EV Charge Hub (que pode consultar em charge.codesystemlab.com), ou até mesmo grupos de redes sociais, permitem a comunicação entre condutores, facilitando a troca de informações ou o contacto caso precise de pedir a alguém para mover o carro. Deixar um número de telemóvel visível no tablier pode ser uma boa prática, especialmente se preveja que o seu carregamento possa demorar e haja outros postos livres.
Carregamento Lento vs. Rápido: Cada um no seu Regime
Em alguns locais, existem postos de carregamento AC (lento) e DC (rápido) lado a lado. Se o seu carro estiver ligado a um posto AC, mas já estiver carregado ou tiver autonomia suficiente, e vir um condutor a precisar de um carregamento rápido, considere mover o seu veículo. O carregamento AC é, muitas vezes, um carregamento de destino (enquanto trabalha, faz compras ou passa a noite), enquanto o carregamento DC é para paragens mais curtas e urgentes.
Para uma análise mais aprofundada sobre as diferenças e benefícios de cada tipo de carregamento, o artigo Carregar Carro Elétrico em Casa vs. Postos Públicos: Qual Compensa Mais? pode ser útil para perceber como otimizar a sua estratégia de carregamento.
Conclusão: Bom Senso e Respeito Mútuo
A etiqueta nos postos de carregamento é, acima de tudo, uma questão de bom senso e respeito mútuo. Ao seguir estas regras não escritas, contribuímos para uma experiência de carregamento mais fluida, eficiente e agradável para todos. À medida que a frota de veículos elétricos cresce, a importância destas práticas só aumentará. Seja o condutor que gostaria de encontrar no posto ao lado: atencioso, eficiente e respeitador.